segunda-feira, 3 de outubro de 2011
"Finalmente, livre."
Já não dava mais certo. Quase todos os dias, brigavam. Qualquer descuido banal, como esquecer a cafeteira ligada antes de sair de casa era motivo para alvoroço. "Não acredito que você esqueceu ela ligada de novo! Porra, é todo dia! Energia tá caro, a gente não tem dinheiro pra ficar gastando assim!" Nem pareciam mais aquele casal perdidamente apaixonado até antes de morarem juntos. Ele não prestava mais atenção ao andar dela; seus cabelos trançados; o sorriso que o atraiu de forma tão intensa que não houve fuga; o sorriso que nunca mais vira estampado em seu rosto, mas ele nem percebeu a ausência do charme essencial de sua mulher. Ela, também, não olhava mais nos olhos verdes dele, os quais refletiam a luz do sol tão intensamente que chegava a cegá-la em determinados momentos, nem passava mais a mão em seu corpo que ela julgava ideal, e já lhe dera tanto prazer em tantas manhãs, tardes e noites de um misto fervoroso de libido e amor. Ah, o amor. Eles já não conseguiam encontrar o amor que antes era tão forte, tão explícito. As brigas o ofuscam, a falta de dinheiro lhe soterra. E nenhum deles faz questão de procurá-lo nas ruínas do palácio que era o amor deles. Moram juntos por comodidade e necessidade, uma vez que juntando seus míseros salários, conseguem ter mais dinheiro que se cada um morasse sozinho. Não fazem mais amor, só sexo, e muito raramente. Ela arranjou um amante, o qual satisfaz suas carências emocionais e que pretende arrancá-la de seu ninho de comodidade ao lado de seu marido, que já pensa também em arranjar uma amante. Ambos faziam de tudo para tentar fugir de sua rotina sombria, em que tentavam suportam um ao outro e o mundo ao redor que só tentava os comprimir em seu lar por mais tempo ainda. E assim continuaram suas vidas miseráveis e infelizes, até que um dia, após algumas semanas de suspeita, ela diz para ele: "Estou grávida, mas você não é o pai. Não dá mais." Ele, não surpreso com a situação, disse que tudo bem e ela partiu, sem pedir desculpas ou olhar para trás. E ele, com um sorriso no rosto, pensava: "finalmente, livre."
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